{"id":7822,"date":"2020-03-19T15:56:31","date_gmt":"2020-03-19T18:56:31","guid":{"rendered":"http:\/\/maricatotal.com.br\/site\/?p=7822"},"modified":"2020-03-30T19:03:53","modified_gmt":"2020-03-30T22:03:53","slug":"medica-brasileira-em-hospital-italiano-nao-podemos-subestimar-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/2020\/03\/19\/medica-brasileira-em-hospital-italiano-nao-podemos-subestimar-coronavirus\/","title":{"rendered":"M\u00c9DICA BRASILEIRA EM HOSPITAL ITALIANO: &#8216;N\u00c3O PODEMOS SUBESTIMAR CORONAV\u00cdRUS&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"615\" src=\"http:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/9700162D-464A-4057-B03A-7776329345AD-1024x615.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7823\" srcset=\"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/9700162D-464A-4057-B03A-7776329345AD-1024x615.jpeg 1024w, https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/9700162D-464A-4057-B03A-7776329345AD-300x180.jpeg 300w, https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/9700162D-464A-4057-B03A-7776329345AD-768x461.jpeg 768w, https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/9700162D-464A-4057-B03A-7776329345AD.jpeg 1086w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em est\u00e1gio no setor de infectologia no Hospital San Raffaele, em Mil\u00e3o, a m\u00e9dica brasileira Renata Naves Mendon\u00e7a, de 34 anos, narra em detalhes como acompanhou, de dentro de uma unidade de combate a epidemias, o crescimento dos casos de coronav\u00edrus na It\u00e1lia. O hospital tem mais de mil leitos. A unidade de infectologia foi constru\u00edda em 1991, por conta da epidemia da Aids. A infectologista, que foi para passar dois meses no pa\u00eds, estava com passagem de volta marcada para o dia 4 de abril, mas o voo j\u00e1 foi cancelado. Trabalha diariamente no contato com pacientes infectados e relata como \u00e9 o dia a dia do combate \u00e0 pandemia e como os italianos, num primeiro momento, descartaram o risco do cont\u00e1gio. J\u00e1 s\u00e3o mais de tr\u00eas mil mortos no pa\u00eds. O marido est\u00e1 em quarentena no Brasil, depois de visit\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando percebeu que tudo come\u00e7ava a mudar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo aconteceu muito r\u00e1pido. Dia 8 de fevereiro foi o primeiro dia do carnaval de Veneza. Tinha o sonho de conhecer. Fui aproveitar o final de semana, Veneza lotada, os trens lotados. Muita gente junta. Filas gigantescas. As pessoas iam se apertando. Depois, houve alguns outros eventos aqui em Mil\u00e3o. Tinha um bairro aqui lotado. Ningu\u00e9m esperava. No dia 22, teve a quest\u00e3o da cidade de Codogno, a mais ou menos 60 km de Mil\u00e3o. Surgiram casos de uma pneumonia bilateral. Todos tinham ido num bar.\u00a0 Alguns eram assintom\u00e1ticos. O primeiro grande susto.\u00a0 Foram 60 pesssoas com o virus. A\u00ed se alastrou para a cidade toda. Demoraram muito a fechar a cidade. O barman estava infectado. Os donos. Mas n\u00e3o se estabeleceu a origem do v\u00edrus. Tornaram a cidade zona vermelha. A\u00ed em outras cidades da regi\u00e3o aconteceram casos. N\u00e3o vimos o que estava acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Qual foi o primeiro paciente em seu hospital?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro paciente foi um m\u00e9dico de Cremona, que veio transferido, mas n\u00e3o tinha os sintomas. Isso foi em uma sexta-feira. No final de semana fui para Turim. A\u00ed come\u00e7ou o burburinho. Os museus abertos. Algumas pessoas tomando cuidado com m\u00e1scara, mas a maioria sem se importar. Em fevereiro todo, o virus foi praticamente ignorado. Em 7 de mar\u00e7o, fui para Bergamo e voltei \u00e0 noite. L\u00e1 j\u00e1 tinha orienta\u00e7\u00f5es para tomar dist\u00e2ncia. Ali o n\u00famero come\u00e7ou a aumentar absurdamente. Seguraram muito pela quest\u00e3o econ\u00f4mica. Esssa regi\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel por 20% da economia do pa\u00eds. S\u00f3 fecharam quando o n\u00famero aumentou. Dia 7 para o dia 8, acordamos com a zona vermelha decretada. E eu sem saber o que fazer. N\u00e1o podia entrar nem sair da zona. Houve correria de madrugada para as pessoas fugirem para o sul. Tr\u00eas dias depois toda a It\u00e1lia foi decretada zona vermelha. Depois que declarou a Italia zona vermelha. Voc\u00eb via cada dia as coisas apertando mais. Orienta\u00e7\u00f5es nos alto-falantes nos \u00f4nibus. Motorista de \u00f4nibus passaram a colocar faixas para n\u00e3o chegarmos perto, houve limites para o n\u00famero de pessoas nos supermercados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como a rotina do hospital mudou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tivemos que dar alta para pacientes nossos com outras \u00e1reas dentro do hospital. T\u00ednhamos 24 leitos que se transformaram em 120. No subsolo funcionava ambulat\u00f3rio e, no t\u00e9rreo, a medicina do sono. Fomos desativando. Eu participei da primeira reuni\u00e3o para decidir isso. Tem gente que defendia n\u00e3o fazer as mudan\u00e7as. O protocolo inicial foi mais r\u00edgido. Extrapolamos a orienta\u00e7\u00e3o da OMS. Orientava naquele momento utilizar m\u00e1scara cir\u00fargica. Usamos a N95 para todos. Num segundo momento, o controle de infec\u00e7\u00e3o voltou atr\u00e1s. Se tornava insustent\u00e1vel, porque estava come\u00e7ando a faltar. Eu fiquei ansiosa de entrar no leito e ver de perto. Os primeiros s\u00f3 os mais experientes viram. Eu entrei na primeira semana. Todo mundo passou a ficar apavorado com o v\u00edrus &#8211; os leigos -, eu tinha um misto de incerteza sobre o que dizer. Mas entendendo que ali na minha frente n\u00e3o tinha um v\u00edrus, mas uma pessoa assustada.\u00a0 A gente n\u00e3o tinha muita resposta. O primeiro paciente era m\u00e9dico, nos orientava. Os infectologistas corremos para onde todo mundo quer fugir.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como infectologista, que conselhos daria aos brasileiros?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para pessoas no geral \u00e9 muito complicado lidar com o que n\u00e3o pode ver. A gente lida com o inimigo invis\u00edvel aos nossos olhos. \u00c9 algo complicado, n\u00e3o est\u00e1 estampado na cara de ningu\u00e9m que ela porta aquele v\u00edrus. A gente n\u00e3o tinha a percep\u00e7\u00e3o. Achava que ia chegar aos poucos e a gente ia dar conta. Os pa\u00edses que tomaram medidas mais firmes precocemente se sa\u00edram melhor. Estou em uma cidade das mais ricas da It\u00e1lia. Hospital mais rico. E estamos vendo toda a dificuldade de lidar com todo uma popula\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo. Com o medo. Nem pagando tem vaga na UTI. Me sentindo cansada. Meu celular n\u00e3o para de tocar com fake news. A minha m\u00e3e est\u00e1 aqui, mas foi muito dif\u00edcil dizer para ela que ela n\u00e3o poderia colocar a m\u00e3o no rosto quando est\u00e1 na rua. Isso \u00e9 uma coisa que as pessoas precisam entender. A quest\u00e3o de se apegar \u00e0 mortalidade de 2% prejudica. A mortalidade acima de 60 anos \u00e9 16%. Tenho falado com v\u00e1rios com v\u00e1rios hospitais p\u00fablicos e privados e a falta de insumos \u00e9 grave a\u00ed no Brasil. J\u00e1 tem falta de UTI. Aqui estamos fazendo terapias, seguindo o exemplo o exemplo da China. Resgatamos o Kaletra ( lopinavir + ritonavir), inventado nos anos 90 para os pacientes com HIV. At\u00e9 medicina chinesa foi usada. Dentro da enfermaria em que trabalho, j\u00e1 vi quatro mortos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como enfrentar?<\/strong>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gente n\u00e3o pode ir para uma guerra subestimando um inimigo que n\u00e3o conhece. N\u00e3o podemos subestimar o coronav\u00edrus. O exemplo \u00e9 fundamental. E os erros cometidos na It\u00e1lia podem ser evitados.&nbsp; Tem um outro medicamento que est\u00e1 sendo utilizado, criado para o Ebola:&nbsp; Remdesivir. A quest\u00e3o \u00e9 que faz parte de um protocolo de pesquisa. Est\u00e1 dentro do protocolo de pesquisa. Um medicamento s\u00f3 pode ser vendido para a popula\u00e7\u00e3o depois de passar em fase de estudo.&nbsp; N\u00e3o h\u00e1 droga eficaz no momento. A \u00fanica medida \u00e9 se afastar. A quest\u00e3o da higiene. Mudar h\u00e1bitos \u00e9 muito dif\u00edcil. O contato para o v\u00edrus \u00e9 extremamente importante. Ele n\u00e3o mata o hospedeiro, mas se difunde. Apesar de n\u00e3o ter \u00edndice de letalidade do ebola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00eas, m\u00e9dicos, se protegem no hospital?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entro pelo subsolo, retiro todos os acess\u00f3rios, minha alian\u00e7a est\u00e1 guardada em casa. Troco por outra roupa. Entro no andar de m\u00e1scara, \u00f3culos e touca. \u00c9 quarto com press\u00e3o negativa. Coloco uma luva, uma capa imperme\u00e1vel. Tudo que leva para o quarto do paciente \u00e9 levado para fora, para o lixo. Ningu\u00e9m leva para o quarto nada pessoal, nem celular. Se o paciente assina o papel, alguem est\u00e1 com o pl\u00e1stico e veda o papel. S\u00e3o duas luvas, \u00f3culos, m\u00e1scara com viseira. Temos que tomar cuidado para n\u00e3o sentar em lugar algum. Tem um kit de estetosc\u00f3pio em cada quarto. Aparelhos individuais para cada paciente. E me preocupa porque isso n\u00e3o vai acontecer no Brasil. Tem que ter toda uma estrat\u00e9gia para pensar no que levar para dentro do quarto. Tenho que levar seringa, touca, tenho que levar, tem um saquinho, pacote fechado. Tudo que tira quando sai da antessala tem uma forma de tirar corretamente para n\u00e3o se contaminar. Tira a primeira luva, depois a segunda. A minha m\u00e3o est\u00e1 ardendo. Ressecada e grossa como nunca esteve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(\u00c9POCA)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em est\u00e1gio no setor de infectologia no Hospital San Raffaele, em Mil\u00e3o, a m\u00e9dica brasileira Renata Naves Mendon\u00e7a, de 34<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-7822","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entretenimento"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7822","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7822"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7822\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7822"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maricatotal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}